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Dada as dimensões do castelo, rapidamento a população teve que iniciar a construção da suas habitações na zona envolvente deste. Este aspecto é claramente apresentado nas plantas que Duarte de Armas nos deixou. Feita a análise às mesmas, conclui-se que a vila se estendeu na encosta sul da fortificação, onde é visível a edificação da ermida de Santa Margarida que desembocava na rua do mesmo nome (Espanca,1978:184).

O casario nas imediações do castelo foi destruído quando, por necessidade de reforçar toda a estrutura defensiva da fortaleza, se iniciou, em seiscentos, obras de carácter militar, enquadradas no âmbito de reforço das praças fronteiriças. Deste modo todas as construções anteriores a essa intervenção se perderam e, assim, o património edificado da vila de Mourão, que hoje é visível, remonta a este período de tempo.

O conhecimento que existe actualmente sobre a evolução urbanística de Mourão advém principalmente do registo de doações que se encontra no arquivo da Misericórdia desta vila, das plantas do século XVIII relacionadas com a cidadela fortificada, dos cronogramas existentes nas Igrejas e casas particulares, Passos do Senhor e das Actas de Vereação da CMMourão.

Numa tentativa de sistematização cronológica dos arruamentos da vila e tendo em conta os registos de doações à Misericódia de Mourão, instituída possivelmente em 1548, encontramos as seguintes datações e correlações com as ruas actuais da vila: Rua de São Bento 1608, Rua do Bemquerer, 1608, Rua de Santa Margarida em 1631, Rua do Norte, 1677, Carreira da India, 1759, do Poço ao Rossio, 1763, e Rua da Granja, 1764 (Medinas, 1995: 20).

Estas ruas podem-se visualizar através de plantas do século XVIII, onde se reafirma a sua existência. Segundo a planta que Miguel Luiz Jacob desenhou aquando da visita geral de 1755, a vila apresentava-se rodeada por uma trincheira edificada pelos moradores para protecção dos arrabaldes, construída em alvenaria e parapeito do mesmo, contendo quatro portas de acesso: a porta de S. Bento que se localizava na confluência de três estradas: a que ligava Mourão à Granja e a Vila Nova del Fresno, a que fazia ligação com Moura, perto do lagar de Manuel Rosado, e com a estrada da Barca ou do Guadiana; a porta Nova; a porta dos Currais, orientada para o local onde viviam moradores fora da cintura amuralhada do arrabalde (actual Rua de S. Sebastião) e, por último, a porta da Rosa, com ligação à estrada do Porto das Carretas, no curso da qual se encontrava o poço de abastecimento aos moradores.

Na planta de Lippe, de 1773, são igualmente visíveis os traçados que correspondem actualmente às seguintes ruas, tendo como orientação os baluartes da Igreja e de S. António, no sentido para oriente: Rua de S. Bento, Rua de Sª. Margarida, Rua do Bemquerer; Rua do Norte, Rua Torta (actual Rua Machado dos Santos), Carreira da Índia (actual Rua General Humberto Delgado), Rua da Casa Grande (actual Rua João José Vasconcelos Rosado), Rua da Granja (actual Rua Marcos Gomes de Vasconcelos Rosado), Rua da Pedreira; Rua de Joaquim José de Vasconcelos Gusmão, Rua da Lapa, Rua Joaquim Silvestre de Vasconcelos Rosado, Rua de S. João, Rua de S. Sebastião (antiga Rua de Fora).

O desenvolvimento dos espaços e das ruas da vila é igualmente confirmado a partir de alguns cronogramas existentes no Passo do Senhor na Rua Machado dos Santos, 1698, no alçado principal da casa nº 14 da Praça da República, que apresenta os lintéis cronografados: ANO - 1712, na casa dos lavradores Vasconcelos Rosado, actualmente Lar da 3ª idade, 1723, fachadas das Igrejas de S. Francisco, 1740, e da Igreja da Misericórdia, 1743, na casa nº 11-13 da Rua do Norte, 1749, nos Paços do Concelho, 1755 e na casa do falecido Dr. Gomes, na Rua Machado dos Santos, 1823.

Também as actas de vereação se revestem de grande importância para o conhecimento urbanístico da vila já que aludem a algumas ruas do município, principalmente no que se refere a aspectos relacionados com calcetamento, iluminação, alinhamentos e arrendamentos.

Enquadradas nos arruamentos citados anteriormente e pelo seu valor arquitectónico, histórico e artístico, ressaltam as características chaminés cilíndricas de Mourão, impostas maioritariamente nas frontarias das casas, com saída de fumos em anel de aberturas entre tijoleiras expostas ao cutelo e com cobertura cupulada, como se pode verificar num dos núcleos mais representativos existente na Rua de Santa Margarida. Outro elemento valorativo do casario é a aplicação de ferragens nos balcões de sacada nas casas senhoriais.

Entre estas salientam-se de Vasconcelos Rosado, na Rua João José de Vasconcelos Rosado, a nº 1-5 e a nº 16, na Praça da República, a situada na Rua Dr. José de Vasconcelos Gusmão, actual Caixa de Crédito Agricola e a nº 11-15 existente na Rua Marcos Gomes de Vasconcelos Rosado. Para além destes edifícios ressaltam ainda os Paços do Concelho localizados na actual Praça da República.

A casa de Vasconcelos Rosado, actual Lar da 3ª idade de Mourão, é sem dúvida a de maior dimensão construída no concelho. Edificada no reinado de D. João V, apresenta um exterior de alvenaria, corrido por várias janelas de peito e de sacada, “ com vergas triangulares decoradas por volutas e discos, fechada por grades férreas do estilo rococó, do último terço do século XVIII ” (Espanca, 1978: 185). A porta é emoldurada com largas jambas em xisto, encimada por ornamentos florais e medalhões, tendo o do meio a data de 1723.

A casa do nº 1-5, sita na Praça da República, é edifício senhorial contendo, em posição central, um escudo de armas em mármore, pertencente à antiga família Abreu. A parte inferior é constituída por lojas e a parte superior é corrida por quatro balcões de sacada com moldura em xisto e ferragem batida de varões cilíndricos.

Com o nº 16, localizada na praça citada anteriormente, o edifício evidencia-se como casa nobre, com quatro balcões de sacada com ferragens outrora de estilo barroco, apresentando em posição central brasão marmoreado, do tipo eclesiástico. Esta casa está, provavelmente relacionada com familiares de João Limpo Pimentel Pereira Lacerda, licenciado em Direito Canónico pela Universidade de Coimbra e cavaleiro da Ordem de Cristo. Ao longo da sua vida ocupou vários cargos entre os quais se destacam, desembargador da relação eclesiástica da comarca de Montoito, arcediago de Oriola na Sé de Évora. A casa em questão sofreu recentemente obras de restauro que contribuiram para a sua descaracterização, nomeadamento aquando da substituição das ferragens barrocas, por um modelo estandardizado, pela inclusão de um soco revestido a xisto e pela aplicação de textura no alçado principal da casa.

Na Rua Dr. José de Vasconcelos Gusmão, antiga Rua dos Alvanéus, surge uma casa apalaçada com pórtico e janelas de peito e verga recurvas, típicas do século XVIII, feitas com material local, o xisto. Possivelmente a casa onde nasceu o ilustre mouranense, Joaquim de Vasconcelos Gusmão em 4 de Dezembro de 1837 e faleceu a 18 de Fevereiro de 1912, em Queluz. Formando-se em Direito foi deputado nas legislaturas de 1868-69, 1869-70, 1870-71 e 1880-81 e elevado a par do reino por carta régia de 7 de Janeiro de 1881. Em 1866 foi nomeado lente substituto da cadeira de Economia Política da Escola Politécnica de Lisboa, sendo mais tarde nomeado lente proprietário e jubilado em 1911.

O edifício com o nº 11-15, localizado na Rua Marcos Gomes de Vasconcelos Rosado, albergou durante vários anos a antiga Escola C+S de Mourão. Apresenta traça setecentista, com balcões de sacada, enriquecidos por grades de ferro da época de D. Maria I. O portão originário, através do qual se acedia ao logradouro da habitação, baixou em altura quando se decidiu realizar um piso superior, acrescentado mais duas janelas ao alçado principal. Possui ainda um óculo quadrifoliado que proporciona iluminação à escadaria que conduz ao piso superior.

O próximo edifício que se destaca é a sede da actual Câmara Municipal. Com fachada virada para sul, este espaço congregava outrora o Celeiro Comum e foi mandado fazer pelo Juiz de fora, o licenciado Francisco Inácio Bavião Peixoto, tal como é referido na lápide que se encontra ao lado do brasão marmoreado, com a seguinte inscrição:

FOI MD.º FAZER ESTA
OBRA. P:Lo DR, IVIS DE F
ORA.FR.CO IG.º DA COS
TA GAVIÃO PEIXO
TO NO ANN.º DE 1755

O edifício tinha inicialmente apenas um piso térreo. Internamente a sua morfologia traduzia-se pela presença de três naves e três tramos de abóbadas apoiadas em fortes pilares, constituídos por pedra e tijolo, com base quadrangular e arcos plenos, com um pé direito considerável, dando origem a salas amplas, comunicantes entre si. Este espaço foi sendo progressivamente adulterado, tendo em consideração as novas funções para as quais era destinado a desempenhar.

Posteriormente foi ampliado com o primeiro andar, apresentando-se actualmente com um alçado principal austero, mas simétrico, utilizando nas guarnições materiais locais como o xisto (Foto nº 13). Destacam-se as janelas de sacada com ferragens simples de varões cilíndricos e as balaustradas que encimam o edifício. O remate do mesmo é já deste século, tal como provam as fotografias da época.

De assinalar que, durante o princípio dos anos trinta, o edifício dos Paços do Concelho sofreu transformações decorrentes da construção de novas salas onde foram instaladas as repartições públicas. No decorrer destas iniciativas foi também deliberado na CMMourão a obrigatoriedade dos proprietários em realizarem caiações e em consolidarem os rebocos, alterando-se assim o antigo código de posturas Municipais (AVCMourão,1930: fl 76). Na continuação das medidas de melhoramento desta vila, foi feita uma intervenção de expropriação com o objectivo de se proceder à destruição das edificações que se localizavam, à entrada de Mourão, por se encontrarem em adiantado estado de degradação, o que contribuía negativamente para a imagem desta.

A Praça da República (Foto nº 14) foi igualmente alvo de intervenção durante a década de 30, tendo sido aplicado um gradeamento no seu perímetro, e construído um mictório e um coreto, onde se visualiza a datação de 1932. (Fortes, 1933; 425). As medidas protagonizadas no início dos anos trinta, sendo presidente da Comissão Administrativa o sr. José Escária, materializaram a intenção de se proceder à execução do projecto de melhoramento e embelezamento da praça da vila, proposto pelo Eng. Domingos Ferreira Araújo e Sousa, em 1865, mas que não foi executado, na altura, por falta de disponibilidade financeira da Câmara Municipal de Mourão (AVCMMourão, 1865: fl 150).

Deste modo, no conjunto arquitectónico edificado de Mourão, ela sobressai, tornando-se no verdadeiro centro da vila.

Este espaço remonta ao século XVIII, constatação que surge depois de analisados alguns edifícios civis e religiosos, através da sua morfologia interna, dos elementos decorativos e ornamentais existentes nos seus alçados principais e das inscrições cronológicas que algumas apresentam.

Para além dos edifícios referidos anteriormente, importa salientar, no conjunto arquitectónico da vila, outros aspectos relacionados quer com o alargamento do casario quer com o embelezamento da povoação e a introdução de algumas infra-estruturas com vista à melhoria da saúde pública e da qualidade de vida da população.

Assim, ao longo do século XIX e XX, a vila conheceu alguns planos de beneficiação de espaços públicos, tendo incidido em particular na Praça do Município.

Implantada sobre um polígono de base rectangular, sofreu várias intervenções e adaptações consoante a época e as necessidades. Da arborização do largo, da construção do poço do concelho, cuja solução arquitectónica relembra vagas reminiscências da fonte da Manivela, à construção do coreto e do muro envolvente que lhe confere o aspecto actual, o jardim tornou-se o pólo congregador da vivência e convivialidade comunitária. Relativamente ao poço é de registrar que, até aos anos 40, essa fonte de água possuía dupla valência, pois abastecia os moradores e era um elemento decorativo da mesma. A vereação proibia no entanto que a água desta fonte fosse utilizada para regas, lagares e dar de beber a cavalgaduras (AVCMMourão, 1875: fl 55).

No âmbito das intervenções pontuais que o município procedeu para a melhoria das calçadas das ruas da vila bem como das estradas de acesso às fontes, poços e terrenos agrícolas mais próximos, verificam-se várias referências ao longo dos anos às obras efectuadas nas principais vias desta localidade. Ruas como a de S. Bento, Torta, da Lapa, de S. Margarida são calcetadas e reparadas ao longo do século passado. Igualmente estradas como a da Barca, Porto de S. Gens e Porto das Carretas foram objecto de beneficiação de forma a facilitar o transporte e o acesso de pessoas e mercadorias.

Foram várias as petições de particulares quer residentes, quer não residentes na vila a solicitar terrenos à câmara para a construção de casas de habitação. Por este meio foram preenchidos espaços entre as casas já existentes, o que levou à constituição de novos arruamentos aos quais a vereação respondeu na sua sessão de 3 de Julho de 1892 com a atribuição de denominação às ruas que a não tinham. Assim surgem as Ruas do Alcance (junto do Rocio da Atafona em direcção ao antigo convento do Alcance), de S. Rita (situada entre a Porta Nova, Rua da Cruz e Largo de S. Rita), da Cadeia (da Rua de S. Bento em direcção à cadeia da vila), de S. José (que vai da Rua de S. Margarida à estrada municipal da Barca) e Rua Nova de S. João (a que vai da antiga Rua de S. João à praça do mesmo nome), a Travessa do Picadeiro (localizada a nascente do picadeiro do sr. Rosado), o Largo de S. Rita (existente no sul da Travessa do Picadeiro e da Rua de Santa Rita) e Praça de S. João (a que fica ao sul da Rua Nova de S. João).

Com a partida de D. Manuel II, último rei de Portugal para o exílio na Inglaterra, a monarquia hereditária, que vigorava havia mais de sete séculos no nosso país, chega ao seu fim. Implantada a República no dia 5 de Outubro de 1910, instituiu-se de imediato um governo provisório, presidido por Teófilo Braga, com o fim de administrar o país até à realização de eleições. Elaborou-se uma nova Constituição e adoptaram-se novos símbolos para o regime emergente, representados no escudo (a nova moeda), na bandeira (a actual) e num hino (A Portuguesa).

É no contexto destas alterações gerais provocadas pela instituição do novo regime legitimado democraticamente, que, a nível local, com a destituição das famílias que até aqui detinham o poder municipal, ocorrem mudanças políticas e administrativas, repercutindo-se as mesmas na modificação dos nomes das vias públicas, na sessão extraordinária de 14 Outubro de 1910 (fl 84):

1. Praça do Município para Praça da República
2. A Rua Nova, Rua da Porta Nova e da Cruz para Rua 5 de Outubro
3. Rua Torta para Rua Machado dos Santos
4. Largo dos Bibes para Largo Dr. Miguel Bombarda
5. Rua da Carreira da Índia para Rua Cândido Reis

Posteriormente em 1929, houve a necessidade de se proceder, com carácter de urgência, à definição e precisão dos prédios urbanos desta vila, para a atribuição correcta dos números de polícia, resultando nas seguintes considerações (AVCMMourão, 1929: fls 39v a 40):

1. A rua hoje denominada Cândido Reis volta a chamar-se Rua Carreira da Índia;
2. A antiga Rua da Vila Nova passe a chamar-se Rua Dr. Joaquim José Vasconcelos Gusmão;
3. Que à Travessa do Picadeiro seja dado o nome de Rua Cândido Reis;
4. Que à artéria que vai da parte do nascente do Largo Miguel Bombarda à Rua 5 de Outubro, seja dado o nome de Rua da Fábrica, pelo facto do Dr. Líbaneo Esquível ter mandado construir uma fábrica com moagem de azeitona e farinação (por proposta de 1920: fl 45v);
5. Que a artéria que vai da Rua 5 de Outubro até à Rua da Fonte Nova se chame Rua da Muralha;
6. Que o largo que fica junto da casa de Bento Amaral, seja dado o nome de Largo Governador Furtado de Mendonça;
7. Que a primeira artéria a seguir à rua 5 de Outubro, sai da Rua da Muralha seja dado o nome de Travessa da Muralha;
8. Que a segunda artéria a seguir à Rua 5 de Outubro, saída da rua referida se dê o nome de Rua Mouzinho de Albuquerque;
9. Que à artéria que fica entre esta rua e o Rossio do Alto da Forca seja dado o nome de Rua Vasco da Gama;
10. Que a artéria que vai do fim da Rua 5 de Outubro para o Rossio do Alto da Forca, se dê o nome de Rua do Alto da Forca;
11. Que a travessa junto da Rua da Fonte, se dê o nome de Travessa dos Currais;
12. Que o prolongamento da Rua do Alcance para o lado do casão das máquinas, seja denominado Rua D. Manuel I;
13. Que a artéria que vai dea escola ao fim do Largo Miguel de Bombarda, seja denominado rua da escola;
14. Que o prolongamento desta rua para o lado do casão das máquinas, seja denominado Rua Sacadura Cabral;
15. Que ao largo que fica em frente do edifício escolar e ao centro da Rua S. João, seja dado o nome de Largo Dr. Agostinho Fortes.“

Foi na sequência da necessidade de reparar habitações e no contexto de concessão de terrenos para construção que se aflorou a permanência da muralha da vila no século XIX. No seu estudo sobre o tema “A Paisagem Urbana Medieval: Uma Aproximação”, Amélia Aguiar Andrade refere o seguinte: “Esvaziada de importância, a antiga muralha torna-se obsoleta, perdendo assim a sua dimensão colectiva que nascia da sua subordinação a interesses mais gerais. Podia então ser destruída para permitir que se rasgasse uma rua, se prolongasse uma calçada ou se construísse uma casa ou um outro qualquer edifício. Ou vendida a particulares, interessados em reutilizar os materiais, em aproveitar os antigos eirados ou servir-se de um pano de muralha como parede da casa que pretendiam construir ou ampliar” (Andrade, 1998: 18)

Encontrou-se uma referência directa a este aspecto em 1841 e em 1855, o que leva a supor que aquela desapareceu gradualmente, em resultado da procura de materiais para a construção de casas e de muros, fazendo com que não haja nos nossos dia vestígios dos muros desta vila, muito embora, pela toponímia, se aluda a estes na actual Rua e Travessa da Muralha. No entanto, torna-se observável em algumas casas de habitação e nos respectivos quintais das traseiras das Ruas Machado dos Santos, da Pedreira e da Muralha... vestígios do que poderá supostamente corresponder à trincheira edificada pelos moradores, que existia em torno da vila e que é documentada nas plantas de Miguel Luiz Jacob (1755), além de outros documentos manuscritos da época que a citaram também.

Outro edifício que assumiu e assume um grande destaque na vila e no concelho foi a construção do edifício escolar, constituído por quatro grande salas e um espaço de recreio para as crianças.

A iniciativa, de foro particular, teve como principais mentores o Dr. Libânio Augusto Ramalho Esquível e os Srs. Padres José Madeira Gonçalves e Vitorino José Córdes. No entanto a obra foi também financiada por João José de Vasconcelos Rosado e, finalmente, concluída com dinheiros do erário público.

Durante as décadas de 50/60 procedeu-se a um conjunto de realizações infra-estruturais básicas, com a orientação e o financiamento do poder central, no intuito de dotar Mourão e posteriormente as sua freguesias, de um conjunto de equipamentos que proporcionassem uma mais valia e um crescente bem estar a esta vila raiana. Concretamente a execução, embora de uma forma gradual, dos projectos das escolas públicas, abastecimento de água e da electrificação da vila, da alienação de terreno e construção da sede da casa do povo entre outros.

Dado que o elemento água é de grande importância para uma região que é fortemente assolada por temperaturas altas e com um modo de vida rural que está directa e indirectamente relacionada com ela, a definição de uma rede estratégica de pontos de distribuição de bebedouros ou chafarizes para usufruto da comunidade resultou oportuna, aquando da obra de abastecimento de água a Mourão. Surgem assim, os Marcos Fontanários colocados nas Portas de S. Bento, Largo do Mendonça, Rua de Olivença e Rua José Teodoro d`Abreu Bravo. “Os bebedouros no Largo Furtado Mendonça, Jardim Público, Largo da Escola, Rua de S. Sebastião e Rossio Vasco da Gama. Por sua vez os chafarizes foram implantados no matadouro, ao cemitério, ao Rossio da Escola e ao Poço Largo. Por fim a Fonte Monumental a poente do jardim público” (AVCMMourão, 1952: fl 181v).

Na continuação das obras iniciadas nestas décadas, importa referir, como aspecto curioso, que o calcetamento da rua da antiga cadeia, situada no castelo, foi feita nesta altura, estando as habitações dessa mesma rua implantadas sobre a cintura abaluartada do castelo.

É igualmente na zona envolvente deste edifício que se situava o antigo cemitério da vila.

No âmbito da aplicação dos novos despachos que passavam a regulamentar o processo de higienização da morte, fruto da adopção dos ideais burgueses vindos de França, que levou à regulamentação da obrigatoriedade da criação de um espaço individualizado e digno para receber os mortos, surgiu um curioso episódio registado pela vereação que respondeu do seguinte modo ao solicitado pelo Administrador Geral do Distrito, no respeitante à aplicação do decreto de 21 de Setembro de 1835 “(...) esta câmara actual, querendo concluir o cimitério desta Villa, que se achava já com o muro feito, faltando só porem robocar-se e alvorar-lhe portado, encontrou hum grande obstaculo, qual he, não ter aquelle terreno, onde está collocado o dito cimiterio, capacidade necessaria para a profundidade das Cavas, ou Sepulturas (...)” (AVCMourão, 1840: fl76-77).

Adiada temporariamente a localização definitiva do actual cemitério, surge um local que ganha consistência e que facilmente tem o acordo dos eleitos que estavam à frente da câmara e que “unanemamente votou para ser alli construido o Cimiterio desta Freguezia “ (Idem 76v).

Através das actas de vereação ficou-se também a conhecer quando e onde se pretendia colocar a necrópole “(...) passando esta mesma Camara a indagar, e examinar outro terreno com as exigencias requeridas (...) só encontrou mais propriamente hum terreno dentro do Castelo desta Villa junto à Igreja Parochial (...)” ( Ibidem 76).

Sobre esta matéria apresentava-se como nota justificativa para a nova localização do cemitério o facto “(...) de não ser tão despendiosa a sua construcção, mas ainda mesmo, que tornando-se alli menos odioso tal estabellecimento para o povo, ou plebe, com tudo mais esta camara a conveniencia, de que, feitos os funerais, ou exequias religiosas do costume a hum finado, que a familia ordene, na Igreja, daqui passão logo os cadaveres a enterrar ao Cimiterio, sem o incomodo que podia haver se fossem a enterrar áquelle Cimiterio que se acha collocado a huma não pequena distancia desta Igreja Parochial e muito contra a vontade dos Parochianos desta Freguesia” (Idem 76v).

Enquanto o cemitério não se concluía, toma-se igualmente conhecimento, através das actas de vereação, do tipo de diligências tomadas pela Câmara sobre a questão do enterramento dos mortos, confirmando-se que outrora a ermida dos Remédios tinha assumido funções mortuárias já que é assinalado que “(...) na Igreja dos Remédios desta Villa se podem, entre tanto, enterrar os cadeveres, ate que as supraditas providencias (...)” (Idem 77) sejam tomadas.

No entanto, a verdadeira razão da nova implantação da necrópole não resultou da pouca profundidade das “cavas” mas sim “achando-se o muro todo destruido e cahido por terra, não só pelo temporal, em razão de ser de taipa, mas pelos parochianos desta mesma Freguezia, pela aversão que conservão pela situação, e que assim se torna mais despendiosa a sua construção, ou reidificação, do que a construção d`outro no lugar novamente descoberto e mais conforme com a opinião publica” (Idem 77-77v).

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