A implantação de casas de forma contígua permitiu a constituição de ruas, largos e praças, caracterizando topograficamente, desde sempre, um núcleo urbano. No entanto, este por definição não se entende imutável pois o espaço disponível está permeável à introdução de novos elementos paisagísticos que o transformam de acordo com as características sócio-económicas, políticas e culturais das comunidades que sucessivamente o forem ocupando. Assim, é perfeitamente identificável as distintas paisagens urbanas que constituem a vila de Mourão, sugerindo, outros tempos e outros quotidianos diferentes dos actuais.
Observando a planta geral actual sobre Mourão, constata-se que a Praça da República tem uma forma rectangular e o seu acesso é feito através de vários arruamentos que vão desembocar nas extremidades do rectângulo. Relativamente a este espaço é deveras interessante a observação dos seguintes aspectos:
1. A implantação da Câmara Municipal de Mourão é confinante, precisamente, numa dessas extremidades comunicantes para o exterior da praça e interior do aglomerado assumindo, assim, a sua centralidade;
2. Existe uma intersecção de arruamentos que confluem directamente para o centro político da vila;
3. A confluência dos diferentes arruamentos que levam ao eixo principal de acesso directo à Câmara sugestiona uma configuração em forma de leque;
4. O desenvolvimento urbanístico da vila foi feito, de acordo com as informações e interpretações efectuadas, da encosta do castelo para a Praça da República e desta em direcção às rochas de S. Miguel (no sentido de Espanha);
5. A referenciação cronológica dos edifícios mostra-nos que eles são maioritáriamente setecentistas;
6. A caracterização sumária feita aos edifícios, a nível interno e externo, dos seus elementos constitutivos e decorativos estão enquadrados nos princípios arquitectónicos do barroco;
7. As plantas mais antigas anteriormente citadas, e a constatação “in loco” da actualidade, evidencia que o desenvolvimento da traça urbanística de Mourão é predominantemente monocêntrica;
8. Confirmação da utilização da métrica (em termos aproximados) na definição do espaço da praça (250 palmos x 0.2156m - valor aproximativo no sistema decimal de um palmo - = 107.8 : 2 metros = 53.9 metros.
Analisando agora as casas que comunicam com a Praça da República, verifica-se a existência de uma certa coesão ou tentativa disso mesmo nas suas fachadas e janelas. O mesmo se confirma em relação às normas de regulamentação da altura dos edifícios, sendo constatável o nivelamento do seu pé direito. Esta afirmação da aparência e da regularidade, que é obtida por uma tentativa de estandardização das fachadas, não deixa, porém, de reflectir a estrutura da sociedade, visível através do tratamento valorativo e das dimensões das janelas de sacada...
No seu trabalho sobre Urbanismo da Época Barroca em Portugal, José Eduardo Horta Correia destaca que no traçado urbanístico “(...) se assinala como primeira área a demarcar a Praça (com o seu pelourinho, Casa da Câmara, Cadeia e Igreja), a partir da qual se devem delinear as ruas em linha recta. É imperativo que as casas revistam a mesma figura exterior para que se conserve sempre «a mesma formosura da terra e a mesma largura das ruas». Estão aqui portanto os princípios essenciais do urbanismo da época moderna, a linearidade, a uniformidade e o programa” (Correia, 1998: 147).
Encontram-se alguns destes aspectos na traça urbanística da vila de Mourão, realçando-se na praça desta localidade o carácter relativamente amplo da sua dimensão e a assumpção da sua posição centralizadora no conjunto do aglomerado populacional. |
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